Amilcar Cabral

por Ana Maria Cabral

Programa da comemoracao da XX anniversario da independencia de Cabo Verde, 5 Julho 1995.

[ English version ]


Introduction

Cape Verdean Connection: Transnational Community was a featured program at the 1995 Festival of American Folklife at the Smithsonian Institution in Washington, DC. At this event, Ana Maria Cabral, widow of Amilcar Cabral, delivered an address about her late husband's understanding of culture and its implications for modern nationhood. We provide her speech as an opportunity for Cape Verdeans and others to reflect on this important topic. Amilcar Cabral, founder of the African Party for the Independence of Cape Verde and Guinea (PAIGC) and a major figure in the struggle against Portuguese colonial rule in Africa, understood the pivotal role of culture in national liberation and nation building. His ideas seem especially apt today when culture looms as large as economic security and military might in shaping world and local events and the responses to them. Culture also holds Cape Verdeans together as a modern, transnational nation. Dual-citizenship and voting rights exercised by Cape Verdeans around the world and their on-going, informal, international economic relationships with one another are based on cultural values, customs, and traditions passed through generations. The interdependence of Cape Verdeans residing in the Islands and in diaspora communities is central to Cape Veredean cultural identity and is written into the country's Constitution.

After his assasination by agents of the Portuguese colonial regime, Amilcar Cabral was honored as "Founder of the Nationality" for his leadership in the struggle to create the legal and political basis for Cape Verdean independance. Cabral would be the first to point out that the goal of this struggle was to fully realize the nationhood already present in the cultural resistance of the Cape Verdean people.

- Ray Almeida, Senior Program Advisor, The Cape Verdean Connection
- James Early, Director of Cultural Studies and Communication, Center for Folklife Programs and Cultural Studies, Smithsonian Institution, Washington, DC
- Peter Seitel, Folklorist, Center for Folklife Programs and Cultural Studies


Portuguese Text

Minhas Senhoras Meus Senhores

Ao tomar a palavra neste Festival de Cultura, a convite do Instituto Smithsonian, que muito me honrou, não posso deixar de considerar a delicadeza da missão que me trouxe aqui: Abordar um dos aspectos mais importantes do pensamento e da obra de Amilcar Cabral, aquele justamente que deixou uma marca indelével na história da luta de libertação dos povos do Continente Africano.

Não se pode falar de Cabral e das suas considerações em matéria de cultura sem invocar a sua origem e o processo da sua maturação. Nascido na Guiné-Bissau(1) numa época particularmente marcada pela colonização, passa a sua infância em Santiago e frequenta o liceu em S. Vicente (ilhas de Cabo Verde) em condições de privilégio a que poucos africanos podiam então aspirar. Esses factos permitem melhor compreender e apreciar a personalidade de Cabral e a trajectória do seu engajamento político.

A via da cultura foi muito provávelmente a primeira por que Cabral enveredou na reflexão sobre o seu tempo, sobre as condições do domínio colonial e sobre as condições de vida do seu povo, como atestam poemas da sua juventude(2) e outros escritos do seu tempo de estudante. Já como agrónomo, a observação directa das relações entre dominador e dominado enriquecem as bases da sua análise graças aos contactos com as massas exploradas de camponeses da Guiné e de Angola por um lado e das dramáticas consequências das secas sucessivas de Cabo Verde, por outro. Essas vivências dão a Cabral os fundamentos culturais e políticos que lhe permitiram, no momento oportuno, mobilizar com lucidez e sucesso para a luta de libertação nacional e ser considerado o exemplo entre os homens que assumiram a liderança do processo para a independência das colónias portuguesas.

Para Cabral, a base material de qualquer concepção teórica de emancipação nacional era a própria realidade do país. Esse seu realismo fundamental está bem expresso nas Palavras de Ordem lançadas durante a guerra de libertação, entre as quais quero destacar esta:"Aprender na vida, aprender nos livros e aprender com a experiência dos outros. Aprender sempre. !"; e esta outra "Sermos cada vez mais capazes de pensar muito os nossos problemas para podermos agir bem e agir muito para podermos pensar cada vez melhor"(3). Amilcar Cabral foi sempre fiel a essa abordagem das realidades políticas, e não só.

No quadro daquilo a que ele chamou Resistência Cultural, Amilcar Cabral apresentou uma tese em Syracusa, nos USA, sob o título "Libertação Nacional e Cultura" em homenagem a Eduardo Mondlane, assassinado em Dar-es-Salaam em Fevereiro de 1969. Nele diz do primeiro Presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) que "o seu grande mérito não foi a sua decisão de lutar pelo seu povo, mas sim o ter sabido integrar-se na realidade do seu país identificando-se com o seu povo, aculturar-se pela luta que dirigiu com coragem, inteligência e determinação. "Porém na seguinte frase que Cabral exprime a ideia mestra das suas convicções políticas:" A História ensina-nos que em determinadas circunstâncias é fácil ao estrangeiro impôr o seu domínio a um povo. Mas ensina-nos igualmente que, sejam quais forem os aspectos materiais desse domínio, ele só se pode manter com uma repressão permanente e organizada da vida cultural desse mesmo povo, não podendo garantir definitivamente a sua implantação a não ser pela liquidação física de parte significativa da população dominada. "(4).

Para ele, no seio das grandes massas populares, a dos camponeses particularmente, o rio cultural não cessa de correr, mesmo quando, como o caminhante, diminui o passo e toma atalhos para se proteger. Essa verdade é particularmente evidente em Cabo Verde onde o poder colonial privilegiou o desenvolvimento da morna e da coladeira , reprimindo outras manifestações culturais como o batuque e o funaná, considerados "menos dignos". Quem se lembra de alguma vez, na colónia de Cabo Verde, ter ouvido na rádio ou em qualquer outro meio oficial de difusão, as Finaçon de Nha Nácia Gomi ou de Nha Bibina Cabral?

À data da independência muitos jovens não sabiam o que era o funaná, expressão longeva de um povo, que sobreviveu nos terreiros, nos casamentos populares e que, mal teve a oportunidade para manifestar a sua vitalidade, surpreendeu a todos, passando dos terreiros para as antenas da rádio, ultrapassando barreiras sociais e fronteiras, ganhando o Mundo.

Pode ainda citar-se outro exemplo, subtil, de resistência ou melhor de identificação cultural típico de Cabo Verde, sociedade crioula, mestiça por excelência nos diferentes aspectos biológico e cultural. Trata-se da festa tradicional em homenagem a São João, festa religiosa celebrada em várias partes do Mundo, inclusivé aqui na América.

Uma manifestação profana dessa festa, o Colá S. Jon, nasceu nas ilhas de S. Vicente, Santo Antão e Brava em Cabo Verde, dançado nos terreiros vizinhos dos templos, depois de purificadas as almas dos crentes. Ao mesmo tempo que preservou os rituais da igreja, o povo introduziu neles novos elementos próprios da sua cultura, do seu mais profundo carácter, certamente para se reconhecer numa manifestação que até ali lhe era alheia. Á por isso que considero as manifestações culturais das festas tradicionais de S. João um exemplo feliz de resistência cultural na acepção de Cabral em que a necessidade de defesa de símbolos próprios não exclui a possibilidade de absorção, de integração de contribuições externas que podem ser consideradas alienígenas num determinado momento, mas que com o tempo passam a integrar uma nova matriz aberta ao exterior embora atenta á preservação de valores próprios para a sobrevivência da sua identidade.

Cabo Verde tem um processo histórico muito interessante. Ilhas desabitadas originalmente, a população do arquipélago resultou da misceginação entre negros escravos africanos e seus descendentes e europeus, na sua maioria degredados de Portugal, mas não só. A acção directa do colonizador diluiu-se progressivamente numa mestiçagem biológica e social que, aliada a factores pouco propícios à instalação de uma classe dirigente metropolitana forte, cedo impos à sociedade caboverdeana uma personalidade e cultura próprias patentes na recriação linguística, na re-harmonização da música, num vestígio ancestral de hábitos culinários e nas manifestações mais comuns da vida de todos os dias.

Como já evoquei atrás, o pensamento de Cabral baseava-se na realidade nacional e internacional também, numa relação dialética muito própria de quem se assumia como parte dela, intervindo de forma sistemática com o objectivo de a alterar nos aspectos considerados negativos e, simultaneamente, aprendendo na análise dessa mesma realidade. Pode afirmar-se que Cabral era, ele-próprio, uma referência viva de resistência cultural sobre a qual teorizou. Há várias provas da sua ligação íntima com a realidade do seu povo e também do conhecimento profundo que tinha das características do inimigo, o regime colonial português, que ele sempre distinguiu do povo português com o qual se solidarizava numa postura do mais profundo humanismo.

Amilcar Cabral movimentava-se à vontade no seio do seu povo, dos camponeses combatentes que o seguiram. Ele encarava com lucidez os aspectos mais dispares da tradição caboverdeana ou guineense não se coibindo de combater as superstições, tabus e outras manifestações do género que identificava como consequências do subdesenvolvimento económico, da falta do domínio dos fenómenos da natureza e da interpretação mágica do real vivido. (5).

Mário de Andrade, intelectual angolano de renome internacional e profundo conhecedor da obra de Cabral, dizia a propósito desta problemática, iluminando a sua característica mais marcante, o seu permanente contacto com a realidade, a forma como se apoderava desta realidade para voltar a ela, ajustá-la e imprimir-lhe novos contornos: "Ele percebia a essência da mentalidade mágica de que está impregnado o espírito africano e o carácter ambivalente das crenças. Pedagogo, animou constantemente uma reflexão militante sobre as influências culturais negativas ligadas a factores regressivos do passado (superstição, tabu, ritos e costumes) e sobre a harmoniosa integração dos valores tradicionais em função do progresso moderno"(6).

Numa entrevista a Manuel Alegre, poeta português exilado na altura em Argel, Cabral falou da história de Portugal, das navegações, das descobertas e dos Lusíadas e disse ". . . não compreender como é que um povo que sempre tinha lutado pela independência podia admitir um regime colonialista que negava esse direito a outros povos. Sublinhou que os portugueses não deviam permitir que Salazar se apropriasse da sua história e a deformasse para tentar justificar uma guerra de genocídio. Salientou que, com a sua política, Salazar estava a comprometer o futuro e a destruir o próprio passado. Terminou afirmando que sendo africano e estando a lutar contra o colonialismo português para a libertação da sua terra, estava pronto, se lho pedissem, a pegar em armas e a lutar ao lado dos portugueses em Portugal"(7). Manuel Alegre realçando a repercussão das palavras de Cabral no seio dos jovens, principalmente dos que tinham sido incorporados no exército colonial, afirmou anos depois que "vários jovens já mobilizados tomaram nessa mesma noite a decisão de desertar".

Cabral tinha sabido dirigir-se à identidade cultural e histórica do povo portugês, ao recordar aos portugueses que eles tinham uma história e uma cultura e que era nessa história e nessa cultura que deviam procurar inspiração para a assumção plena do seu destino e da sua liberdade. Minhas Senhoras. Meus Senhores. Penso que a recolha criteriosa da nossa realidade nacional, expressa na diáspora ou no solo pátrio, como defendia Cabral, resultaria na inspiração sobre os rumos a seguir nos tempos actuais para o progresso. O pensamento e o exemplo de Cabral ao apontar a História e a Cultura como fundamentos para o sucesso de projectos de desenvolvimento de povos e nações constituem uma mensagem clara para todos nós, caboverdeanas e caboverdeanos, emigrados ou não, que queremos contribuir para a evolução de uma Humanidade mais justa.

Ao proporcionar a possibilidade dos caboverdeanos da América poderem conviver com as expressões culturais dos caboverdeanos que habitam nas ilhas, o Instituto Smithsonian deu-nos, entre outras alegrias, a possibilidade de mais uma vez constatarmos como o pensamento de Cabral se ilumina. Porque, com a realização deste Festival, ele está a ser relembrado e é assim que os homens se imortalizam.

Para o caboverdeano, sujeito ` dura contingência de um solo pátrio pouco pródigo, a emigração foi um drama existencial. Obrigou-o a que, longe da sua terra, se ajustasse a novas realidades, se adaptasse a novos contextos, num permanente desafio à sua integridade enquanto ser de origem cultural perfeitamente estabelecido, num permanente apelo à sua identidade, por vezes em ambiente francamente hostil.

Se aplicarmos o pensamento de Cabral na análise da constituição actual do universo da caboverdianidade, em que se destacam as grandes comunidades radicadas no estrangeiro, como esta que caboverdianamente nos acolhe neste grande país, o que vemos? Por um lado o facto da cultura caboverdeana se ter confrontado, aqui nos Estados Unidos, com outras culturas possuidoras de maior capacidade de expressão, ou com valores atractivos susceptíveis de influenciar uma mestiçagem inevitável. Pode acontecer também, por outro lado, que no processo da sua integração, a cultura caboverdeana se tenha adaptado ao quadro geral da sociedade americana e tenha ganho, assim, as cores do seu humanismo. Esta segunda alternativa é aquela que mais frequentemente resultou do contacto entre as culturas caboverdeanas e as dos países onde a diáspora se instalou. A emigração, o afastamento do solo pátrio, do convívio nacional e familiar e o confronto com outras culturas não resultou na perda da caboverdianidade. Esta foi-se mantendo graças ao exercício de actividades culturais, profundamente arreigadas nos homens e mulheres que demandaram outras terras.

A resistência cultural, qualidade intrínseca de qualquer povo, como dizia Cabral, confirma a ideia segundo a qual existem elementos da matriz cultural nas diferentes comunidades caboverdeanas espalhadas pelo mundo. É interessante notar o exemplo da língua nacional caboverdeana que, ao criar o seu sistema de resistência contra influências estranhas, conservou em certas comunidades da diáspora, expressões que cairam jé em desuso nas ilhas!

A Caboverdianidade expressa-se tanto aqui na América como lá em Cabo Verde. Porque também aqui houve resistência cultural, determinada sem duvida por factores totalmente diferentes dos que ditaram a resistência nas ilhas, e tonificada por percursos de integração numa sociedade multicultural como é, por excelência, a sociedade norte-americana.

E neste ponto considero necessário fazer um apelo aos nossos especialistas de ciências sociais, antropólogos, sociólogos, escritores e outros intelectuais para que ajudem a valorizar o produto de cada uma das nossas comunidades, para que harmoniosamente se possam conjugar, diluindo as diferenças, as rejeições sempre presentes nos projectos humanos, de forma que possamos caminhar mais seguramente em defesa dos nossos valores.

Cabral orgulhar-se-ia sem duvida se pudesse ter diante de si este manancial de cultura e, certamente também, estaria a dar o exemplo, aproximando-se para ouvir de viva voz a proposta que dimana deste pedaço do coração da Nação.

Muito trabalho têm diante de si os nossos investigadores sociais porque, temos de o reconhecer, ainda não foi feito o inventário do património que temos, de tudo quanto os caboverdeano-americanos fizeram em prol do enriquecimento da nossa cultura.

Que novos factores foram introduzidos na família e qual o peso da integração caboverdeana na sociedade americana? Qual é hoje o estatuto da mulher caboverdeana-americana? Quais as influências da sociedade americana junto da família caboverdeana no que respeita à educação dos filhos? Até que ponto a comunidade se abriu às influências do meio? Que novos valores se incorporaram à matriz cultural caboverdeana? Que contribuição têm dado os intelectuais caboverdeano-americanos para a ciência, a economia e a política? A que ponto os artistas caboverdeanos estão integrados no meio? O que revelam as suas obras? Como classificar a sua força de trabalho?

Enfim, perfilam-se um sem numero de questões, de informações que servidas por um sistema adequado de comunicação a exemplo deste acontecimento cultural impar, seguramente nos iriam conduzir a um maior conhecimento, a um enriquecimento do nosso mundo, para nos reencontrarmos no nucleo comum da nossa cultura em aberta convivência com outras culturas. Permitam-me que vos convide a meditar na extensão e importância deste projecto tendo em conta as contribuições das nossas comunidades na Europa, em África, na Ásia, na América do Sul, enfim nas sete partidas do mundo e o quanto isso significaria para a caboverdianidade,

Fazendo Cabo Verde parte de um continente do qual apenas físicamente estamos afastados, as manifestações mais fidedignas da nação mostram-nos que é forte no caboverdeano a quota parte africana do seu património cultural. Neste momento em que graças ao Instituto Smithsonian, está perante nós uma parte de nós-mesmos, não poderíamos deixar de prestar uma homenagem particular a essa Africa heróica pela qual Amilcar Cabral lutou e deu a vida.

Bem haja o Instituto Smithsonian por nos ter proporcionado esta oportunidade de reviver as manifestações mais genuínas da Caboverdianidade.

Resta-me desejar que o exemplo de Cabral possa continuar presente nas gerações vindouras de combatentes da liberdade e do progresso humanos. "É preciso sempre lembrar que o povo não luta por ideias, não luta pelas coisas que estão na cabeça dos homens. O povo luta para obter vantagens práticas, pela paz, para viver melhor na paz e para o futuro dos seus filhos. Liberdade, Igualdade, fraternidade, permanecem palavras vazias para o povo se não traduzem uma real melhoria das suas condições de vida" (8).

Muito obrigada


Notes

  1. Amilcar Cabral nasceu em Bafatá (1924) na então colónia portuguesa da Guiné . Formou-se em Agronomia em Portugal (1945-1950).
  2. Nomeadamente Ilha e Segue o teu rumo irmão.
  3. Cit. Aristides Pereira " O perfil de Cabral e a actualidade do seu pensamento," in Continuar Cabral-Simpósio Internacional Amilcar Cabral-Praia, 17-20 de Janeiro de 1983.
  4. Amilcar Cabral Libertação Nacional e Cultura Universidade de Siracusa -20 Fevereiro 1970. Texto escrito em homenagem a Eduardo Mondlane.
  5. A. Cabral - "Análise de alguns tipos de resistência" in Semináriode Quadros, Conakry 1969.
  6. M. de Andrade - "A dimensão cultural na estratégia da libertação nacional: Identidade, poder cultural e democracia" in Continuar Cabral-obra já citada.
  7. Manuel Alegre - "O duplo sentido cultural da obra de Amilcar Cabral," in Continuar Cabral, já citado.
  8. A. Cabral - Seminário de Quadros, Conakry 1969, ref. já citada.



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